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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Escultura Folheada

Aqui está um livro

Um livro de gravuras coloridas;

Há um ponto-furo. um simples ponto

simples furo

E nada mais.

Abro a capa do livro e

Vejo por trás da mesma que o furo continua;

Folheio as páginas, uma a uma.

- Vou passando as folhas, devagar,

o furo continua

Noto que, de repente, o furo vai se alargando

Se abrindo, florindo, emprenhando,

Compondo um volume vazio, irregular, interior e conexo:

Superpostas aberturas recortadas nas folhas do livro,

Têm a forma rara de uma escultura vazia e fechada,

Uma variedade, uma escultura guardada dentro de um livro,

Escultura de nada: ou antes, de um pseudo-não;

Fechada, escondida, para todos os que não quiserem

Folhear o livro.

Mas, prossigo desfolhando:

Agora a forma vai de novo se estreitando

Se afunilando, se reduzindo, desaparecendo/surgindo

E na capa do outro lado se tornando

novamente

Um ponto-furo, um simples ponto

simples furo

E nada mais.

Os seres que a construíram, simples formigas aladas,

Evoluíam sob o sol de uma lâmpada

Onde perderam as asas. Caíram.

As linhas de vôo, incertas e belas, aluíram;

Mas essas linhas volantes, a princípio, foram

se reproduzindo nas folhas do livro, compondo desenhos

De fazer inveja aos mais “ sábios artistas”.

Circunvagueando, indecisas nas primeiras páginas,

À procura da forma formante e formada.

Seus vôos transcritos, “refletidos” nessas primeiras linhas,

Enfim se aprofundam, se avolumam no vazio

De uma escultura escondida, no escuro do interno;

Somente visível, “de fora”, por dois pontos;

Dois pontos furos: simples pontos

simples furos

E nada mais

JOAQUIM CARDOZO

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